O menino José de olhar pobre e pouca esperança, anda pelo mundo cabisbaixo, olhando para o chão, vendo somente as sujeiras do mundo. Ele vai caminhando para a sua escola, que é bem longe da sua casa, com o seu tênis apertado, sujo e repleto de remendos. O sol sem nenhuma piedade queima a sua pele negra, fazendo destacar ainda mais as suas cicatrizes brancas. Às vezes cruza olhares, principalmente quando passa em frente das lojas. Os vendedores o olham atentamente, José entende e segue seu rumo olhando a calçada. Mesmo com o seu caderno velho e rabiscado, algumas pessoas se sentem ameaçadas, já projetam um olhar furioso imaginando que aquele garoto é ou um dia será um marginal.
É o mais forte é mais alto de sua turma, já perdeu as contas de quantas vezes reprovou. Com 11 anos de idade e ainda está na segunda série. Quase todos os dias ele vai à direção escutar o quanto e violento, mas nunca lhe dão castigo ou uma lição moral, eles acreditam que o garoto e deficiente mental, mesmo sem nenhum laudo médico que possa comprovar. Esse é um rotulo que às vezes faz com que os professores esqueçam do seu nome. Já estão acostumados a apontar o dedo e dizer: “aquele garoto é um “DM””. José tinha apenas dois anos quando a sua mãe o abandonou junto com seus 4 irmãos. O seu tio, que se chama João, que os salvou de virarem meninos de rua, com um misero salário de 350 reais, que conquista como o melhor motoboy de sua empresa. Sente extrema dificuldade em cuidar das cinco crianças. Às vezes João, sente vontade de abandonar os seus seis sobrinhos e ir embora para um lugar calmo e distante, mas agora já não pode mais, cuida dessas crianças desde pequenas. A sua aparência de 40 anos, faz muitos duvidarem que ele tenha apenas 30. Nunca foi casado, não tem filhos, mas tem sua mãe e outros irmãos, que se distanciaram dele para não ajudar, e sempre estão aconselhando a abandonar os meninos. Nesses momentos os olhos de João se emudecem com algumas lagrimas, sentindo um corte profundo em seu coração, mas ainda assim encontra forças para continuar nessa luta com as crianças.
É lá se vai o menino José, comendo ferozmente o lanche que todos os dias a escola lhe dá, esse é o maior motivo para que José continue na escola. O seu pai morreu quando ele ainda era recém-nascido, não sabe ao menos o seu nome. José nem procura mais saber, ele prefere dar o nome que quiser ao seu pai, e fantasiar histórias que lhe abrem o sorriso, até mesmo nos seus dias mais tristes. Se é que se pode dizer que existem dias que não sejam tristes.
Um dia cansado do seu cabelo crespo, das suas unhas sujas e grandes, e do odor desagradável que exalava do seu corpo, que muitos reclamavam quando ele chegava perto, resolveu vender uma bicicleta que tinha acabado de ganhar de sua vizinha, para poder comprar sabonete, shampo e perfume. Sua mãe que raramente ia visitá-lo, disse que iria vender a bicicleta e iria comprar o que ele tanto desejava. Sua mãe saiu com a bicicleta e a noite voltou bêbada e com as mãos vazias. José ao ver a cena, abaixou um pouco mais a sua cabeça do que de costume. Suas pernas começaram a tremer, não conseguia saber o porquê, não conseguia se mover, o medo era intenso. Sempre que a sua mãe está embriagada ele leva uma surra que aumentava ainda mais as suas cicatrizes. E dessa vez não foi diferente.
Qual será o futuro do menino José? Quem é o deficiente, os José, as famílias, as escolas, ou a sociedade? Acredito que a mistura de tudo isso está criando mais um futuro incerto. Mas se um dia o menino José virar marginal, somente ele será responsável pelo seu crime. Será trancafiado em uma cela do presídio. E a sociedade tentará o reciclar e integrar-lo novamente no mesmo mundo do qual ele veio. Acreditam que a figura possa mudar vivendo no mesmo fundo.
