segunda-feira, 23 de junho de 2008

De Pessoa a Pessoa: Psicoterapia Dialógica.

O livro, De pessoa a pessoa, de Richard Hycner, propõe uma psicoterapia dialógica, onde a cura acontece através do encontro, na relação entre terapeuta e cliente. Essa relação é marcada pelo encontro EU-TU, em contraste a relação EU-ISSO. Hycner compreende que na relação EU-ISSO, o outro e compreendido como um objeto, utilizando-o como um meio para um fim. A relação EU-TU se inicia quando voltamos nosso ser para o do nosso “parceiro”. Ao estarmos envolvidos e verdadeiramente interessados no outro, nos deparamos com a esfera do “entre”. O entre é compreendido como um elemento constitutivo próprio da existência humana, é um fenômeno ontológico.

Nesse contato o terapeuta vivencia o paradoxo da sua profissão, pela necessidade do envolvimento pessoal, o self do terapeuta é intrinsecamente uma parte do processo. Isso significa que o terapeuta, na relação, não caminha apenas, com uma objetividade, que utopicamente imagina possuir por se detentor de uma formação que propõe o conhecimento humano. A sua subjetividade é parte do processo, o terapeuta, assim, vivencia uma relação mutua, caminhando entre a subjetividade e a objetividade. Podemos pensar em uma relação de aproximação e distanciamento. O terapeuta necessita entrar em contato com a sua interioridade, pois na relação ele pode se deparar com questões conflitantes que lhe são próprias. Para isso se torna necessário esclarecer, que a terapia e para o cliente e não para o terapeuta. Nesse sentido deve-se ter claro para o terapeuta a possibilidade de se deparar consigo mesmo, e se o terapeuta não encontrou respostas para curar o seu sofrimento, não conseguirá lidar com o sofrimento do outro.

A psicoterapia dialógica pensa uma relação de respeito mutuo, onde o terapeuta e cliente se reconhecem na alteridade, isso significa pensar em suas existências particulares. É um caminhar junto, buscando na relação, onde ocorre no “entre”, a possibilidade da cura. Hycner cita Buber, demonstrando um importante aspecto para compreensão desta relação: “O homem não é para ser visto ‘através’, mas para ser percebido de forma cada vez mais completa no seu mostrar-se e no seu esconder-se e na relação dos dois entre si”. Um aspecto importante desse pensamento é a aceitação do outro, reconhecendo os limites e as necessidades, buscando como pensa Hycner “um caminho da compaixão”.

Essa abordagem revela a relevância do dialogo no processo terapêutico. O desequilíbrio ocorre em uma perspectiva subjetiva, sendo assim a cura deve ocorrer nesse caminho. Reconhecendo o outro como um ser é não como objeto. Reconhecer os limites do terapeuta e do processo terapêutico e um marco extremamente relevante no pensamento de Hycner, onde o terapeuta perde o caráter autoritário e passa a ter a mesma importância que o outro. É um processo complexo, pois não tem uma técnica que dê segurança ao terapeuta, o processo terapêutico acontece no “entre”, através da relação EU-TU. Uma relação que respeita os momentos de resistência do cliente, buscando compreender as necessidades do cliente em vivenciar a sua resistência. Buscando nesse processo uma ponte para se tornar um “um aliado, um amigo” como descreve Hycner. A psicoterapia dialógica trata a dimensão espiritual, mas esta não está vinculada a uma perspectiva religiosa, mas pensa que todo dialogo humano é fundamentado com o Ser e é uma conseqüência dele. A experiência espiritual não se dá através da transcendência da realidade mundana, mas no domínio espiritual, através do encontro EU-TU com a alteridade. Esta pode ser uma pessoa ou a natureza:

“Não se pretende que o espiritual transcenda nossas limitações concretas. Em vez disso, ele deve aceitar essas limitações e transformá-las. O confronto com nossos limites humanos e a luta para transformá-los indicam a estrada que devemos seguir. Ainda assim, esse esforço não é realizado em um isolamento auto-imposto. Não dependemos apenas de nossos próprios recursos. Estamos em comunhão com os outros, que também estão lutando. É dialogo cada vez mais profundo com os outros que nos conduz para além de nossa finitude”. (Hycner, 1998).

O reconhecimento do humano é algo extraordinário. Permite reconhecer a existência, buscando reconhecer e respeitar a alteridade do outro, tornando assim possível reconhece a nossa própria alteridade.


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